Entrevista com o presidente da União Mundial do Judaísmo Progressista

Rabino Stephen Fuchs falou sobre temas considerados tabus por muitas religiões


Em visita ao Rio Grande do Sul, o presidente da União Mundial do Judaísmo Progressista, Rabino Stephen Fuchs, esteve na ACM-RS nesta sexta-feira, 3 de agosto, para uma reunião-almoço. Antes de embarcar para a Capital, Fuchs conversou durante meia hora por telefone com Zero Hora, para quem falou sobre temas considerados tabus não apenas pelo judaísmo, mas também por diversas outras religiões.

Zero Hora – Qual sua opinião sobre o serviço militar obrigatório para judeus ortodoxos nas forças armadas de Israel?

Stephen Fuchs – Se você vive em um país, todos devem operar dentro das mesmas responsabilidades. Devem ter as mesmas obrigações para com o país. E, se existe o alistamento obrigatório para os cidadãos de Israel, é correto que os ortodoxos, assim como todo mundo, sirvam.

ZH – Isso representa uma perda de influência dos ortodoxos na sociedade?

Fuchs – Espero que sim. Não acho que um pequeno grupo de pessoas deveria segurar o resto do país segundo suas crenças, seus desejos. Em uma democracia, todas as pessoas devem ter as mesmas obrigações. E causa ressentimento quando um grupo possui privilégios especiais e outros não. Acredito que eles ainda são muito poderosos em Israel, mas gostaria que não fossem, pois ainda deve haver mais reformas no país. Todos os judeus serão iguais diante da lei do país. Então, é um pequeno enfraquecimento, se realmente for um.

ZH – O casamento entre judeus e não judeus enfraquece a religião judaica?

Fuchs – É uma preocupação, mas é também uma oportunidade. Esperamos instilar em nossos filhos o amor pelo judaísmo para quando chegar a hora de eles escolherem um parceiro para a vida. Então, por um lado, temos de ficar preocupados. Por outro lado, sou grato por viver numa sociedade na qual as pessoas são livres para se apaixonar por qualquer um. As pessoas vão se casar com quem encontrarem. Casamentos mistos vão acontecer e devemos dar boas-vindas, abraçar, trazer para a comunidade, estar disponíveis para ensinar aos que chegam. No Brasil e numa cidade como Porto Alegre, há uma pequena população judaica. Não é fácil achar uma parceira judia.

ZH – Se temos crianças com um pai judeu e uma mãe que não é, devemos considerar essa criança judia? Sabemos que ortodoxos não consideram essa criança judia.

Fuchs – Na reforma comunitária nos EUA, a criança tem a religião na qual foi criada pelos pais. Pensamos que os pais têm o direito de tomar a decisão. E o Estado e a comunidade judaica devem respeitar essa decisão.

ZH – Qual sua visão sobre o casamento entre homossexuais?

Fuchs – Não falo por todos os judeus progressistas. Cada um tem a liberdade de ter sua opinião. Mas os homossexuais não escolheram ser homossexuais. Eles foram feitos dessa forma. E quem os fez dessa forma? Deus. Devem ter a liberdade de viver, casar e passar suas vidas com quem quiserem, e esses casamentos devem ser reconhecidos pelo Estado e pela comunidade judaica. Aqui nos Estados Unidos, nos últimos 25 anos, mais ou menos, colocamos de lado alguns de nossos medos e preconceitos e descobrimos que isso traz força para a comunidade. Quando as pessoas se importam e são comprometidas umas com as outras, podem ser bons pais, membros da sinagoga, rabinos e cantores. Na comunidade reformista ou progressista nos EUA, estamos passando de um senso de medo e não aceitação para um senso de – eu diria – completa aceitação da homossexualidade como uma realidade da vida. Todos os seres humanos foram feitos à imagem de Deus. Se Deus os fez assim, não posso discutir. Devem poder viver de uma forma plena e feliz.

ZH – Figuras judaicas influentes na cultura questionam a existência de Deus. Podemos citar Woody Allen e Sigmund Freud. O senhor acredita que, do ponto de vista cultural, pode haver judaísmo sem Deus?

Fuchs – Uma das minhas citações favoritas é do Talmude, segundo a qual Deus teria dito: “Oxalá meu povo me rejeitasse, desde que guardasse os meus mandamentos”. Tenho certeza de que no DNA de Woody Allen há um tataravô que acreditou apaixonadamente em Deus, e essa crença o influenciou a usar seu talento de forma boa e positiva. O fato de Woody Allen ou Sigmund Freud não acreditarem é prerrogativa e direito deles. Mas o mais importante é como agimos. Se agimos de uma forma que ajuda a tornar o mundo um lugar melhor, estamos vivendo os ideais judaicos. Então: sim, a crença é legal, mas você pode ser um bom judeu sem acreditar em Deus.